sexta-feira, 19 de setembro de 2014

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Um grande poeta, músico e vocalista. Vale a pena seguir...



Ler Centauro Saher é abandonar o mundo onde vivemos para entrar num mundo harmonioso cheio de amor e sensibilidade.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

D. Francelina


Morava no mesmo bairro, na segunda casa depois da curva. Franzina, simpática e discreta, passava grande parte do seu tempo em casa. O seu cabelo castanho-escuro ondulado cortado no pescoço, preso por cima das orelhas com ganchos camuflados, o seu rosto fino de olhos faiscantes e lábios finos emanavam serenidade e alegria. Não tinha filhos. Vivia só com o marido na companhia de uma família de gatos.
Era esta cara alegre que eu via, em raras ocasiões, quando regressava da escola. Após pôr o almoço do marido na mesa, deslizava até ao gradeamento do muro do seu quintal e o seu olhar vagueava para além da paisagem imediata e perdia-se no ponto onde o físico se perde para o secreto local do pensamento. Era assim que a surpreendia. Umas vezes visivelmente preocupada, outras, perdida no labirinto das possibilidades da vida e outras ainda só para apanhar o ar ausente de pessoas. Não sei se a perturbava com a minha chegada e o meu cumprimento. Nunca soube. Nunca mo deu a entender. O seu olhar rodava alegremente na minha direção sempre que os meus passos me denunciavam. Regressava do seu mundo longínquo, onde estivera aprisionada por instantes, e respondia na sua voz simpática interessando-se por mim. Respondia à sua alegria contagiante na certeza de estar na presença de uma pessoa da qual não tinha nada a temer. Era, talvez, uma das poucas pessoas. Na sua presença sentia-me protegida, na certeza de estar debaixo de uma grossa asa protetora. Sempre acreditou em mim. Mesmo quando a coscuvilhice parecia ter aberto uma ferida na sua consideração. Interrogava-me então para me ouvir e aconselhar numa voz baixa preenchida de cumplicidade. Nunca me disse quem iniciara o boato. Limitava-se simplesmente a questionar-me de uma forma que a culpabilidade ficava excluída da conversa. Também nunca me interessara. Mas o que mais me agradava era conhecer a vida secreta dos seus gatos que eu avistava ocasionalmente em cima dos muros ou atravessando rapidamente a estrada de terra batida, sem incomodarem ninguém. Sendo uma grande alma, jamais matava um animal por ser excedentário. Criava-os dedicando-lhes todo o amor traduzido em carinho. Todos tinham nome. Fui apresentada às mães e acariciei os pequeninos sob o olhar atento das progenitoras. Era um mundo escondido dos olhares vizinhos e que se abria para mim. Era uma honra. Nessa época, não era grande amante de gatos. Nunca tivera grande contacto com esses misteriosos felinos. Fiz a minha estreia nos anexos da sua casa. Sentia-me intimidada. Era um mundo desconhecido para mim e não sabia como seria recebida. Cedo, os meus receios se provaram infundados. Toda a família me aceitou no seu espaço. A presença da dona parecia dar-lhes confiança. Nos dias seguintes, voltei para acompanhar o seu crescimento. Introduzia o braço na abertura do gradeamento e abria o portão largo correndo para as traseiras da vivenda. Batia à porta e pedia autorização para ver os animais. Os gatos lentamente transformaram a intrusa que era na criança maçadora que me tornara. A paciência era gerida pela tolerância.
Foi numa manhã primaveril que conheci uma outra família felina especial. Era uma gata especial que tivera uma pequena ninhada. Desde pequena, aquela afeiçoara-se de maneira diferente à dona e ocupara um lugar especial no seu coração. Poder-se-ia dizer que se tornara na filha que D. Francelina não tivera. Era a única aceite em casa, de forma permanente, pelo menos. Distinguia-se realmente dos outros. Havia nela algo indefinível que a tornava quase humana.
Ao final da tarde, depois de um dia de trabalho, entrava o marido metido num fato de macaco azul. Franzino como ela, evidenciava um colar de cabelo que caía das orelhas para a nuca. O nariz fino do rosto oval e os olhos castanhos inteligentes, também emanavam cordialidade e alegria. Um casal que me alegro de ter conhecido. Pessoas que trouxeram um toque especial à minha vida infantil.

Morreram, há bastantes anos atrás. Primeiro foi ele, depois ela, levada pelo desgosto inultrapassável da sua perda. Um casal especial que conseguiu ultrapassar a ausência de descendência numa época em que a esterilidade (habitualmente atribuída à mulher) era difícil de aceitar.

domingo, 28 de novembro de 2010

A porta aberta

Era uma amizade de quase quatro décadas. A imponente elevação, deitada no sentido da costa da província vizinha, ela protegia a imensa planura dos fortes e húmidos ventos marítimos. Não se conhecia bem a sua história. Ela também não sabia contá-la bem, perdida já nas suas imensas e enevoadas memórias. Ainda assim, ela guardava-as para entreter a sua jovem amiga, nas tardes calmas, longas e quentes de verão, temperadas de estridentes cânticos de cigarras. A sua jovem amiga, guardiã do rés-do-chão direito do alto e elegante prédio que enfrentava orgulhosamente os dias e as noites nas suas roupas gastas e rotas, apresentava um ar miserável de doce menina pobre. A única riqueza era a vista que se alongava até à enorme e fiel Serra d’Aire, afundada no seu quieto sono eterno, e cuja crosta se coloria de um suave tom azulado nas tardes em que as condições atmosféricas lhe eram favoráveis, substituindo a sua habitual e já gasta capa cinzenta. Era para ela que se voltava a porta traseira daquele andar. Toda ela feita de madeira, pintada de branco, aberta ao meio em duas altas e estreitas vidraças, separadas por uma faixa de madeira onde encaixavam, cegas por um cortinado fino que filtrava a luz e os olhares indiscretos, e tapadas por uma porta articulada da mesma madeira, que se prendia na argola cravada na madeira, uns bons centímetros cima do puxador da porta, que rodava à entrada ou à saída. Essas vidraças eram os olhos da estreita e comprida cozinha. Talvez por sentir a fragilidade desse obstáculo às intenções obscuras de qualquer semelhante, a porta mantinha-se teimosamente aberta, com a escura, cinzenta e grossa chave, cuja ponta terminava numa argola, em forma de asa de borboleta, já ameaçada pela ferrugem, sempre pendurada do lado interior. Dias e noites, porta e serra viveram numa entranhável cumplicidade e sã convivência, que se manteria por muitos anos. A serra velava majestosamente pela fragilidade da amiga, mantendo-se atenta a todos os passos e movimentos realizados nas suas imediações, tentando descortinar as intenções por trás de cada indicador dobrado que batia na vidraça; a porta velava pelo seu bem-estar, animando-a nas intempéries e nas valas que os homens cavam no seu peito, em nome dos blocos retirados que lhes auferem o tão precioso dinheiro, (ainda que ameaçando aplaná-la com ambição desmesurada), desfigurando-lhe o rosto com golpes implacáveis. Era desses estranhos seres, movimentados por duas pernas, e por valores estranhos, que elas se procuravam defender… A frágil porta nunca se abriu a estranhas mãos, encontrando na enorme dor da sua gigante amiga, a única dor da sua existência.

sábado, 21 de novembro de 2009

Falar de mim...

Que posso eu dizer sobre mim própria? Não estou habituada a falar de mim própria, talvez nem seja a pessoa adequada para o fazer. Não quero dizer com isto que não o faça com imparcialidade, pois costumo ser bastante dura comigo própria, séria, honesta... só que não gosto de falar de mim, mas vou tentar! Aqui vai... Não sou diferente dos outros e também não sou igual a eles! Não sou bonita, também não me considero feia. Não sou alta, também não sou baixa. Não sou gorda, também não sou magra. Não sou elegante, mas estou contente com as minhas formas naturais. Não sou vaidosa, mas gosto de me sentir bem. Não sou orgulhosa, mas também não sou humilde. Não sou alegre, mas também não sou uma pessoa triste. Gosto de brincar, mas não é sempre. Não sou muito culta, mas sei muita coisa. Gosto de pensar, mas não de divagar em assuntos estéreis. Gosto de me divertir, mas detesto os abusos. Tenho muitos conhecidos, mas poucos amigos! Gosto de estar com amigos, mas preciso de tempo para mim. Demoro a conhecer as pessoas, mas, mais tarde ou mais cedo, chego lá. Não suporto a traição mas tive (e tenho) de viver com ela, e vem de todos os lados e quando menos esperamos! Sou solidária, mas detesto ser enganada! Tenho algum sentido do humor, mas não sou superficial. Não tenho muito sentido de humor, mas consigo ver o ridículo das situações. Amo Deus, mas não sou fanática. Acredito em todas as religiões, desde que defendam a felicidade do ser humano. Penso profundamente, mas o mais abertamente possível. Acredito no ser humano, mas... não em todos e, sobretudo, não agora, ... um dia, o ser humano chegará lá! Gosto de trabalhar, mas não vivo para o trabalho. Acredito no casamento, mas encontrei a pessoa errada. Acredito na felicidade, mas não encontrei uma duradoura! Acredito no amor, desde que verdadeiro. Gosto de comer, mas tenho problemas digestivos. Gosto de cozinha estrangeira, mas prefiro a portuguesa, a italiana e a chinesa. Gosto de beber de vez em quando, mas, para mim, as bebidas são para saborear, não para beber… Adoro viajar, mas com tempo. Faço caminhadas a pé, mas preciso de uma boa companhia ou faço-as sozinha. Gosto muito de conhecer pessoas, mas dispenso as que tratam os outros como objectos descartáveis. Sou curiosa, mas utilizo a curiosidade de forma útil. Gosto de rir abertamente, mas não me rio das pessoas. Gosto de conhecer o próximo, mas para o ajudar e não para o manipular. Gosto de todo o tipo de música, desde que esta seja melodiosa. Leio todo o género de livros, desde que o estilo e o tema me cativem. Leio poesia, mas prefiro-a simples. Tolero todo o tipo de pessoas, desde que não me prejudiquem. Gosto de animais, mas não tenho muito espaço (nem tempo!) para cuidar deles. Gosto de jardinagem, mas o cão estraga tudo! Gosto de tirar fotografias, mas a revelação é cara! Gosto de cinema, mas não de todo o tipo de filmes. Gosto de ir ao cinema e ao teatro mas o tempo é pouco (e o dinheiro!). Gosto da minha casa, mas o crédito leva-me o salário todo! Sou positiva, mas também conheço os meus momentos de desânimo. Sou sonhadora, mas tenho os pés bem poisados na terra. Sou meiga, mas, se estou chateada, sou distante. Sou distraída, mas não sou estúpida. Sou boa mãe, mas julgo que posso sempre fazer mais…e tenho sorte com os filhos que tenho: são boas pessoas! Sou paciente, mas não para a má vontade! Gosto de desporto, mas não faço com regularidade. Gosto de cavalos, mas tenho medo (deve ser do tamanho!)! Poderia continuar a falar de mim, mas já chega...
Fátima Nascimento